Culaço e Cufino

11.90

Culaço e Cufino é uma alegoria assente em dois irmãos que representam muito daquilo que é o povo português, na sua passividade, no seu desejo contido de revolta, na graça que empresta a todas as anedotas e a muitas das situações que põem a ridículo os governantes, e os pequenos episódios da vida de todos os dias.

O Culaço sente-se um peão nas mãos do Criador. É um autodidacta, indiferente à sociedade, porventura bipolar, culto, solitário, desabitado pelas mulheres e por Deus, a quem ele in extremis desafia para um jogo de xadrez.

O Cufino é um recatado pároco, para quem os pecados se resumem à sua incontrolável sede de sexo, e as virtudes a uma postura solidária para com os paroquianos traídos no recato da sua sacristia.

Deus parece estar alheio aos desafios da humanidade, pelo que a primeira jogada de Culaço passa pelo assassinato do irmão. Mas Deus não dorme, e de jogada em jogada, os irmãos vão-se aproximando e o Culaço vai mudando, até que a morte os separa, para depois, e perante a eterna gargalhada dos deuses e seu desespero, o nosso herói se sinta na contingência de voltar a “encarnar”… mas num corpo de mulher.

A alegoria passa pelo Portugal de hoje, e pelo caricato de algumas figuras e factos que envergonham um país à beira mar plantado, um terreno escolhido, porventura por Deus, como palco para a encenação apocalíptica do fim dos tempos. O Culaço tem um pouco de todos nós. Tem a malandrice, tem a voz vernácula, tem o toque de sedutor, o jogo de anca, a inventiva, a alegria contida, mas também o desespero, o chorar baixinho, a tendência para o lamento e o miserabilismo de quem não consegue ser mais nada do que ninguém!

Culaço & Cufino não é uma história de revolta, nem uma denúncia. É um encolher de ombros de dois homens que representam um povo, cujo principal dom é o de saber esperar. Esperar por melhores dias, esperar que a coisa não piore. Esperar que Deus se resolva a dar uma solução sustentada. Esperar que a paciência acabe, porque até lá, vai-se andando!

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